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Crítica - Anna Karenina

Um teatro. O som da coversa de uma plateia. Uma orquestra afinando seus instrumentos. É assim que começa Anna Karenina, mais nova adaptação do clássico romance de Liev Tolstói, que brinca com diversas formas de arte para contar uma das mais famosas histórias de adultério da literatura.

Anna Karenina é um exemplo de como a arte de fazer filmes requer muita criatividade. Originalmente planejado para ser um filme convencional, com filmagens em sets tradicionais e locações, o filme sofreu grandes cortes no orçamento, fazendo com o que o diretor Joe Wright e sua equipe buscassem um método econômico de filmá-lo, e a solução foi um tiro certeiro.

O teatro que vemos no início do filme foi utilizado como cenário de mais da metade da produção, servindo como uma barbearia, a casa da vários personagens, restaurantes, uma pista de corrida de cavalos e, é claro, um teatro. Além do palco e da plateia, o pó, as teias de aranha e o espaço apertado da estrutura de mandeira que fica acima do palco torna-se um emaranhado de becos escuros e sujos na mente do espectador. A direção também não hesita em exibir vários ambientes sendo montados durante as cenas, e consegue criar algumas as soluções para a limitação do espaço de forma sensacional, como a encontrada para a cena dos foguetes. Complementando a ilusão, os personagens geralmente movem-se de forma teatral, como se estivessem dançando, fazendo longos movimentos para executar algumas ações.

Mas o filme não se prende apenas ao set do teatro, e em certo momento a parede do palco se levanta e revela o “mundo real”, onde passamos acompanhar os personagens em locações belíssimas sem que qualquer grande estranhamento seja percebido por parte da mudança de ambiente.

Wright utiliza os dois mundos dentro de seu filme para criar um paralelo entre duas histórias: o triângulo amoroso de Anna Karenina (Keira Knightley), Vronsky (Aaron Taylor-Johnson) e Alexei Karenin (Jude Law) e o romance de Levin (Domhnall Gleeson) e Kitty (Alicia Vikander). Enquanto o primeiro é quase que exclusivamente preso ao teatro, refletindo a situação dos três personagens, o segundo gradualmente vai dando espaço à liberdade dos ambientes externos conforme o romance entre os dois vai evoluindo.

O roteiro de Tom Stoppard dialoga durante toda a projeção sobre o que difere Anna e Vronsky de Levin e Kitty: enquanto o primeiro é baseado no desejo o segundo baseia-se puramente no amor. Também é interessante notar como o roteiro trata a reação da sociedade frente a dois casos de tradição: Anna viram motivo de fofoca, olhares tortos e até insultos, já Oblonsky (Matthew Macfadyen), irmão de Anna, parece não sofrer nenhum tipo de represália social por ter traído a esposa. O que difere os dois casos? O sexo de quem cometeu adultério.

O crescimento dos sentimentos de Anna por Vronski e seu declínio como pessoa ante seus atos é construído de forma excelente, trazendo rimas visuais que revelam o peso de suas escolhas. Se em sua primeira viagem de trem no filme ela mantém uma postura ereta e chora de saudades de seu filho, na última ela está jogada no assento chorando por ciúmes de seu amante. O figurino também ajuda a construir a imagem de uma Anna destruída, especialmente quando vemos a personagem andando por sua casa utilizando a armação de um vestido e mais tarde um véu que parece lhe deixar com rachaduras no rosto. 

Embora não conte com as melhores atuações de seu elenco, Anna Karenina não deixa de ser uma experiência muito agradável à mente e aos olhos. Ao assistirmos ao filme podemos entender porque algumas pessoas dizem que o cinema é a arte definitiva, podendo englobar todas as artes que vieram antes, e ver que o quarto do filho de Anna e Alexei fica dentro da moldura de um quadro apenas reforça essa ideia.

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