Crítica - Valente
Após o fraquíssimo Carros 2, que mal parece uma animação saída do mesmo estúdio que criou a trilogia Toy Story, Wall-E e Os Incríveis, só para citar alguns, o último lançamento da Pixar também deixa a desejar. Não digo que Valente é ruim, mas por muito pouco não é um fracasso.
A trama tem início no aniversário da, então pequena, princesa Merida (Kelly Macdonald), onde recebe um arco como presente de seu pai, Fergus (Billy Conolly), o que nada agrada sua mãe, Elinor (Emma Thompson). No mesmo dia a família é atacada pelo urso Mor’du, que deixa o rei sem metade de uma das pernas. Anos mais tarde Merida se vê presa aos deveres de ser uma mulher e princesa, sendo repreendida frequentemente por sua mãe por não se comportar como uma dama. Cansada de ser oprimida, a princesa encontra uma velha bruxa (Julie Walters) e pede que lhe faça um feitiço que lhe permita ser livre, o que acaba transformando Elinor numa ursa. Juntas, mãe e filha terão que encontrar um meio de quebrar a mágica.
Aí se encontra um dos maiores problemas de Valente. Tudo isso leva mais de 40 minutos de filme para acontecer, que é quase metade da duração total, ficando clara a falta de preocupação dos realizadores com o ritmo do longa. Os diretores Mark Andrews e Brenda Chapman, que também escreveram o roteiro juntamente com Steve Purcell e Irene Mecchi, parecem mais preocupados em exibir belas imagens (o que fazem de forma eficiente) e criar momentos engraçadinhos (como uma torcida de mamilo) do que de fato construir uma história.
A história, a propósito, não deve ser motivo de orgulho para a Pixar. Além da falta de ritmo, o roteiro investe em velhos clichês, como o de uma “lenda antiga”, que nada acrescenta à trama, e que só serve para tentar criar um vilão que não merece tal título, sendo usado apenas para criar cenas de ação. Também há o velho “prazo de validade” para reverter um feitiço, não podendo ser desfeito após alguns dias, ao nascer do Sol, o que faz com que os problemas entre Merida e Elinor sejam resolvidos mais por necessidade do que por vontade própria de ambas. Nada parecido com a Pixar que conhecemos.
O que em parte segura Valente é sua protagonista, a primeira da Pixar. Merida se torna uma personagem interessante por fugir do estereótipo de princesa delicada, mostrando-se uma jovem aventureira, de espírito tão indomável quanto seus volumosos cabelos ruivos. Por outro lado é triste notar a falta de capacidade dos roteiristas em criar situações que desenvolvam a personagem, apostando mais na condição de Elinor como ursa.
Mas se há decepção na trama, o mesmo não pode ser dito sobre a qualidade técnica do filme, que é mais impressionante do que nunca. Os personagens surgem com uma gama maior de expressões e movimentos mais fluídos, e as paisagens se tornam um espetáculo ainda maior quando prestamos atenção em pequenos detalhes como pequenos raios de Sol entrando por entre as folhas, ou pequenos respingos de água sendo dispersados pelo vento na queda de uma cachoeira.
Também há de se ressaltar os bons momentos de humor, como aquele em que Merida tenta se comunicar com a bruxa através de seu caldeirão, tendo que passar por mensagens gravadas e inúmeras opções. É uma pena, porém, que os trigêmeos nunca roubem a cena, embora não sejam totalmente sem graça como os minions de Meu Malvado Favorito. Steve Jobs, que comprou a Pixar da Lucasfilm em 1986, recebeu uma homenagem através do clã Macintosh, e se Hayao Miyazaki assistiu ao filme, ele certamente reconheceu Yubaba, de A Viagem de Chihiro, em algum momento.
Utilizando ainda o recurso de números musicais, Valente parece mais uma animação da Disney da década anterior, apelando para lições de moral e mensagens já batidas, do que da Pixar. Mesmo não sendo um fracasso como seu antecessor, os fica o gostinho da decepção para os amantes da sétima arte.
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